O cardiologista e sócio da SBC, Dr Silvio Sozinho Pereira (SP), enviou impressionante carta ao candidato Hilton Chaves, onde, além de lhe dar total apoio político, listou importantes e coerentes sugestões para uma gestão atuante na SBC, tendo Chaves na presidência em 2012. Segue a carta, na íntegra:
São Paulo, 24 de Setembro de 2009
Prezado Dr. Hilton Chaves, saudações!
Tenho visitado o seu blog a respeito das suas propostas para a SBC e confesso que gostei das mesmas. Tenho a sugirir duas, se me permitir, que considero importantes para nós, sócios e cardiologistas. Antes de mais nada, quero dizer que já lhe conheço. Estivemos em Berlim ano passado durante o Congresso Europeu de Hipertensão. Estávamos eu e minha mulher, que também é cardiologista, no grupo da Sanofi.
Minha primeira sugestão é criar uma Pós-graduação em Cardiologia patrocinada pela própria SBC. Moro em São Paulo(capital) e os cursos de educação continuada, como uma pós em cardiologia são monopólios, como você deve saber, de instituições de ensino e que não dão chances nem abrem oportunidades para que nós, simples mortais, consigamos realizar um sonho. Entrar no Incor ou na Escola Paulista para uma pós, mestrado ou doutorado necessita bem mais do que luta, sonho ou força de vontade. Aqui as coisas funcionam em bases diferentes. Algumas instituições de ensino, com parcerias com faculdades, tentam até criar cursos de pós, mas não tem um respaldo de credibilidade relevante. Vários colegas acabam fazendo esses cursos, que muitas vezes acabam no meio do caminho, frustrando muitos.
Bem, a SBC não é do Incor ou da Escola Paulista ou de qualquer outra instituição. A SBC é nossa! Tem credibilidade, tem material humano, tem suas representações nos estados ou cidades, tem sedes, tem como obter até patrocínio material para concretizar isso. Principalmente agora, que foi feito um convênio com a Harvard University para pós-doutorado. Então, por quê não criar cursos de pós na SBC. Você poderia até dizer: “mas já tem curso de reciclagem, congressos, simpósios, curso virtual, etc”, mas nada se compara em voltar à escola. Fazer um curso de 3, 4 ou 5 dias é uma coisa. Fazer um estágio de 3, 6 ou 12 meses é outra. Fazer uma pós de 2 ou 3 anos também é diferente. O aprendizado é maior. A reciclagem é maior. O estímulo também.
Ano passado, quando voltávamos de Berlim, você nos falou da felicidade que desfrutava, visto que iria passar alguns meses na Inglaterra, fazendo estágio com um professor farmacologista de Cambridge, tendo, inclusive, dito: “na Inglaterra, os maiores hipertensólogos são os farmacologistas e não, os cardiologistas”. Lembro-me dessas palavras. Fazer um estágio ou uma pós tem mais consistência que um curso de reciclagem de 5 dias. E precisamos disso, não só pelo conhecimento adquirido em um maior espaço de tempo, mas até como currículo válido e relevante. Como fazer isso? Várias formas podem ser feitas. Claro, há a parte burocrática junto ao MEC, mas isso, com certeza não é problema. Quanto vai custar? Cobrem um preço justo por uma pós, não o absurdo. O custo pode ficar em conta se houver interesse de patrocínio da indústria farmacêutica. Vários laboratórios já estão entrando neste mecenato, principalmente agora com as novas normas da ANVISA. A própria Sanofi patrocina um curso de pós no Rio de Janeiro. Quem vai ministrar as aulas? Professores, cardiologistas, médicos, diretores da SBC ou filiadas. Quanto vão ganhar? A ser discutido. Principalmente porque essa iniciativa não deve ser apenas para “faturar mais uns trocados”, mas para reciclar os colegas que queiram ser reciclados. A intenção tem que ser nobre, não exclusivamente financeira (a SBC não precisa disso). Quando ministrar as aulas? Comece com um projeto piloto numa capital, de uma vez por semana, cumprindo a carga horária para uma pós. Se houver demanda, aumente para uma nova turma e assim por diante. E quem vai fazer? Os associados da SBC, em cada cidade, em cada Estado, por ordem de antiguidade na sociedade. Exemplo: quem está na SBC há 20 anos tem prioridade em relação a quem está há 19 anos. Havendo demanda, vai havendo uma fila de espera. A medida que novas turmas se formarem, novas são sendo abertas e quem está na lista , entra no curso. Só não pode haver compadrio. Quem não é sócio da SBC terá que se associar, quem não paga há muito tempo, vai ter que quitar suas dívidas para se habilitar ao curso. Isso acaba por trazer mais sócios e fazer com que sócios inadimplentes quitem seus débitos.
São várias barreiras, com certeza, mas com vontade política e visão altruísta, tudo isso pode se tornar realidade. A diretoria atual conseguiu Harvard. Por quê não uma pós-graduação na sua? Ter o Poder apenas pelo desejo do Poder não leva a nada. Ajudar a transmitir o conhecimento é mais importante que ser apenas importante. E todos nós ficaremos felizes. Minha segunda sugestão é mais breve: incentive atividades esportivas durante os congressos da SBC e das estaduais. Ano passado, em Berlim, fiz uma corrida de 5 Km, que foi organizada pelo Congresso de Hipertensão. Em novembro, corri 5 Km numa prova organizada pela AHA, em New Orleans. Nessas atividades, podia correr ou caminhar. Foi ótimo e divertido. Quem esteve lá, com certeza gostou muito, como eu e minha mulher. Eu corro e pratico esportes. Mas já fui sedentário no passado. Falo isso, pois tenho visto que os médicos brasileiros e, talvez, uns 20% dos cardiologistas, estejam obesos ou com sobrepeso. Se quisermos orientar nossos pacientes, se quisermos que eles realmente façam mudanças no estilo de vida, temos que ser o espelho para eles. Temos que dar o exemplo. Senão, fica aquele discurso vazio, de quem vende o peixe, mas não come o peixe. A campanha contra o tabagismo iniciada há anos na SBC foi ótima. Pegou. Muitos colegas deixaram de fumar, inclusive eu. Agora, falta estimular a turma a correr, nadar, emagrecer. Ser um exemplo de saúde para a sociedade. A SBC precisa começar a estimular a prática esportiva, iniciando na sua própria casa.
Dr. Hilton, desculpe a intromissão, espero que você seja vencedor nesta campanha da SBC. Você tem nosso voto, independente de qualquer coisa. Vi, desde ano passado, seriedade, pragmatismo e felicidade no seu modo de agir. Espero que continue assim. Boa sorte e um bom ano.
Atenciosamente,
Silvio Sozinho Pereira, cardiologista de São Paulo
